Andrea Filatro – Designer Instrucional

ENTREVISTA - Andrea Filatro

Andrea Filatro – Designer Instrucional

É uma das principais especialistas do país na área de design instrucional para EAD,  que atua como consultora em educação on-line no setor acadêmico, público e corporativo.  É autora dos livros Design Instrucional Contextualizado (Editora Senac São Paulo, 2004), Design Instrucional na Prática (Pearson Education, 2008), Produção para Conteúdos Educacionais (Saraiva, 2015) e Design Thinking na Educação Presencial, a Distância e Corporativa (Saraiva/Somos, noprelo).  Atualmente é coordenadora de Design Educacional no UNASP Campus Virtual e professora convidada no curso de pós-graduação Inovação em Tecnologias Educacionais da Universidade Anhembi Morumbi.  Filatro é mestra e doutora em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, Pedagoga pela FE/USP e formada em Gestão de Projetos pela FIA/USP.

 

Liliam Silva l Blog educação-a-distância.com_No mercado educacional, especialmente o de EAD, ouvimos dois termos que aparentemente são sinônimos, mas que carregam conceitos e historicidade diferentes. Explique para nós o que é design instrucional e o que é design educacional.

ANDREA FILATROSempre que tratamos desse tema, vem à tona a polêmica a respeito da tradução do termo consagrado em inglês instructional design. Alguns autores acreditam que usar a tradução direta design instrucional não abarca toda a evolução teórica e prática que incorpora novas abordagens pedagógicas e metodologias ativas etc. Costumam identificar a expressão design instrucional como instrução programada, que remete ao início desse campo de conhecimento e prática. Ao meu ver, particularmente, é que não é necessário mudar a nomenclatura para poder abranger todas essas inovações e evoluções não só da área pedagógica, mas também tecnológica, comunicacional e até mesmo organizacional.

Porque na essência da área de DI como um campo de conhecimento, que é bem desenvolvido lá fora, nós temos autores que, mantendo esse termo original, conseguem trabalhar com a complexidade, com abordagens socioconstrutivistas, conectivista, aprendizagem ubíqua. Então, ao meu ver não é necessário nos descolarmos do campo tradicional intitulado design instrucional para sermos inovadores, significativos e efetivos em termos de aprendizagem.

 

Liliam Silva l Blog educação-a-distância.com_Quais foram as correntes de pensamento pedagógico que influenciaram e que ainda influenciam a área de Design Instrucional / Educacional?

ANDREA FILATRO_Falar sobre as correntes pedagógicas que influenciaram e que influenciam o design instrucional é uma tarefa que demanda muito mais tempo do que dispomos em uma entrevista. Poderíamos ressaltar nos primórdios do design instrucional o foco na abordagem comportamentalista, pela psicologia comportamental de Skinner que estava em voga na época na tentativa de tratar cientificamente a aprendizagem, e daí derivando as máquinas de ensino e a instrução programada que tanto está vinculada ao DI até hoje. Com o passar do tempo e a emergência de novas correntes teóricas como o cognitivismo, houve um refinamento das práticas de DI, por meio das taxonomias de objetivos de aprendizagem de Benjamim Bloom e as condições de aprendizagem de Robert Gagné.

Mas a área não estacionou nessas abordagens que até hoje subsidiam a prática do DI. A seguir, testemunhamos a incorporação do construtivismo e do socioconstrutivismo nas práticas de DI, tendo em vista uma aprendizagem mais autêntica, colaborativa e social, e mais recentemente vemos a incorporação do conectivismo, através da criação de soluções educacionais mais abertas, massivas, altamente online e inclusive em plataformas móveis e com foco bem importante na personalização e na adaptação tanto de conteúdo quanto de atividades, percursos, avaliações.

 

Liliam Silva l Blog educação-a-distância.com_Quais são as funções de um designer instrucional / educacional e qual é a formação necessária para atuar nesta área?

ANDREA FILATRO_Quando falamos nas funções do designer instrucional, ou seja, do profissional que faz o DI, podemos pensar num nível macro, de definições globais para um curso, um programa e até um sistema de ensino, e podemos pensar também em questões micro, num trabalho de design fino de unidades de estudo,  por exemplo, de telas de computador ou celular, de páginas de um livro, de orientações bem específicas de atividades, de definição de objetos de aprendizagem, de roteirização de vídeos, infográficos, podcasts. Então, a área de abrangência de um designer educacional pode ir desde atividades mais complexas e abrangentes dentro de uma instituição de ensino, até aquele trabalho bem delicado, bem específico num produto, num recurso didático, num material que vai ser acessado na ponta pelo aluno.

Para realizar essas atividades, pressupõe-se uma formação interdisciplinar baseada em pelo menos três eixos – o eixo educacional, com conhecimento das abordagens pedagógicas,  andragógicas e heutagógicas, das questões de ensino, avaliação e motivação; um outro eixo mais voltado para a comunicação e a informação, e aí entram as mídias e as tecnologias; e um eixo mais organizacional, de gestão de projetos e processos, de compreensão de prazos, custos, escopo, qualidade, riscos, contratos, relações humanas e profissionais. Ao menos, temos essas três bases de formação.

 

Liliam Silva l Blog educação-a-distância.com_Como se cria um projeto de design instrucional / educacional? Qual seria o passo-a-passo para a confecção de um bom projeto de EAD?

ANDREA FILATRO_Sobre o passo a passo para a criação em educação apoiada por tecnologias ou educação a distância, há um processo clássico de design instrucional, que é chamado de ADDIE – análise, design, desenvolvimento, implementação e avaliação (esse E é do inglês evalution).

Esse processo nada mais é do que iniciar entendendo o problema ou a necessidade educacional, ou seja, o que precisamos ou queremos que as pessoas aprendam, passando por um design geral de uma solução didática – um curso, um evento, um produto,  um material didático, avançando para o desenvolvimento dessa solução que foi projetada em linhas gerais, e aí nós temos desde a elaboração e autoria de conteúdos, a roteirização, a ilustração, a filmagem no caso de vídeos, a animação, a programação, a locução, a testagem toda, até chegar à fase de implementação, que é colocar essa solução no ar, inclusive com turmas-piloto e testes com usuários. E também temos a fase de avaliação, que não necessariamente ocorre ao final, mas permeia todo o processo, mas que é coroada ao final, após a implementação, para verificação tanto da avaliação da aprendizagem, ou seja, se as pessoas aprenderam com a solução desenhada, como também a avaliação da própria solução, se ela solução foi efetiva em termos de prazos, de custos e de processos.

 

Liliam Silva l Blog educação-a-distância.com_ Na sua opinião quais são as habilidades e competências necessárias que um designer instrucional / educacional deve desenvolver a fim de criar de executar bons projetos educacionais online?

ANDREA FILATRO _  As competências do designer instrucional já estão mapeadas internacionalmente desde a década de 1980 e com uma última revisão em 2012 por um organismo internacional chamado ibstpi® (International Board of Standards for Training, Performance and Instruction). Algumas das versões desse conjunto de competências já estão traduzidas para o português, facilmente localizáveis na web.

Agora minha opinião pessoal de quais são os pré-requisitos para um bom designer educacional: primeiro ter uma paixão enorme pelo conhecimento e pela educação, ou seja, pelo processo de aprender, de construir, de saber, de se desenvolver como pessoa, e de apoiar as pessoas nesse desenvolvimento. Também é necessário ter uma visão muito centrada no usuário, nas pessoas, um design centrado no ser humano, para que tudo o que se faça, isso proponha, desenvolva e tenha um efeito, um significado para quem está aprendendo. Isso demanda uma curiosidade, uma disposição para aprender continuamente, porque além de as abordagens pedagógicas evoluírem constantemente, temos acelerada inovação tecnológica e midiática que não deixa ninguém parado. O designer instrucional precisa ter essa capacidade se adaptar às mudanças tecnológicas e midiáticas que implicam mudanças na forma de aprender e de ensinar.

E, por fim, mas de maneira alguma menos importante, uma capacidade destacada de trabalhar em equipe, porque o designer instrucional não trabalha sozinho. Ele é na verdade um articulador de diferentes competências que estão envolvidas na produção de uma solução educacional. Direta ou indiretamente ele vai interagir com o cliente que encomendou essa solução educacional com o usuário final na ponta, com o aluno que – espera-se – vai se beneficiar dessa dessa solução, e com toda a equipe interna de produção, desde o especialista em conteúdo que vai trazer os subsídios tecnocientíficos para o desenvolvimento da solução educacional, até a equipe de comunicação, que vai trabalhar com mídias e linguagens, e a equipe de tecnologia que vai cuidar da programação, do design de interfaces etc., muitas vezes chegando até a equipe de execução da solução educacional, por exemplo, os professores e tutores, os monitores, os coordenadores pedagógicos e técnicos, todos estes compondo uma equipe que trabalha em prol da aprendizagem dos alunos.

 

Liliam Silva l Blog educação-a-distância.com_ Existem diferenças entre o design instrucional/educacional aplicado no Brasil em relação a outros países. Se sim, quais são e por quê?

ANDREA FILATRO_Não é tão fácil responder a essa pergunta, primeiro porque há uma infinidade de países, cada um deles em um estágio diferente de lidar com educação, com tecnologia educacional, e com educação e design instrucional. Mas temos alguns indícios: em termos de pesquisa, estamos um pouco atrasados, porque somente com a emergência da Internet na década de 1990 é que o DI foi redescoberto no Brasil.

Com a necessidade de planejar, desenvolver e executar situações didáticas baseadas em tecnologias digitais on-line, é o que o DI emergiu como solução metodológica. De lá para cá, principalmente depois da virada do século, é que se reativaram as pesquisas nessa área. Então, se compararmos o número de pesquisas científicas e técnicas no Brasil com, por exemplo, os Estados Unidos, veremos que estamos ainda muito atrás. Mas, se nos compararmos com outros países da América Latina, por exemplo, estamos de certa forma bem no cenário geral.

Por outro lado, é evidente que o acesso às pesquisas e publicações técnicas internacionais é muito mais fácil hoje do que era no passado, então toda essa produção está acessível para nós, assim como estão disponíveis na Web muitos cursos, projetos, materiais didáticos, objetos de aprendizagem, soluções educacionais de todos os tipos para quem quiser pesquisar, testar, refletir, analisar.

É claro que temos a barreira da língua, uma vez que mais de 90% de tudo o que é publicado está em inglês, o que pode dificultar o acesso a alguns profissionais. A possibilidade de fazer um benchmarking com que está sendo feito e pensado lá fora está totalmente aberta a quem quiser aprender e experimentar.

 

Liliam Silva l Blog educação-a-distância.com_O desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação e a execução do trabalho do designer instrucional/educacional foram processos que caminharam e se ampliaram em conjunto. Explica isto para nós?

ANDREA FILATRO_Desde o surgimento, o DI foi visto como uma metodologia para atingir muitas pessoas usando para isso uma mediação tecnológica. Para termos uma ideia da relação estreita entre DI e tecnologias/mídias, basta pensar no fato de que muitos situam as origens do design instrucional na Segunda Guerra Mundial, quando houve a necessidade de treinar enormes contingentes para a guerra, e para isso foram utilizados recursos midiáticos, que na época eram os filmes, já que o cinema estava em franco crescimento.

Dessa visão mais massificada de educação, o DI evoluiu para incorporar, por exemplo, tecnologias de acesso digital individuais e de pequenos grupos, permitindo a participação em fóruns de discussão e comunidades de aprendizagem e prática com grupos menores de pessoas.

Recentemente, voltamos a utilizar tecnologias massivas, como é o caso dos MOOCs, os cursos massivos online, abertos a milhares de pessoas no mundo inteiro. Essa é uma pequena amostra de como o DI se beneficia das potencialidades tecnológicas e midiáticas para prover educação de diferentes maneiras, com diferentes objetivos e para diferentes públicos.

 

Liliam Silva l Blog educação-a-distância.com_Como foi a sua carreira nesta área? Qual é o recado que gostaria de passar aos novos designers?

ANDREA FILATRO_ Comecei a estudar e a praticar design instrucional formalmente quando ingressei no mestrado em educação na Faculdade de Educação da USP. Eu me interessei a princípio pelo tema da evasão em EAD: preocupava-me o fato de ser registrados índices em torno de 90% em uma modalidade que prometia ser a solução para todos os problemas educacionais contemporâneos. Ao me aprofundar no tema da evasão, um fenômeno complexo e multidimensional, percebi que o caminho para a intervenção, para a minha contribuição como educadora, estava justamente na metodologia de design instrucional.

O pequeno detalhe é que eu já trabalhava com DI e não sabia, pois atuei durante vários anos em editoras de livros didáticos, técnicos e universitários, e o trabalho ali, embora não recebesse essa designação, se ocupava do design instrucional em nível micro. Eu era feliz e não sabia!

Agora, como solicitado, vou me arvorar a dar um recado aos novos designers instrucionais. Essa é uma área fascinante em que podemos de fato articular teoria e prática. Podemos ver o resultado da nossa reflexão, daquilo que acreditamos, em ação, na ponta, com os alunos. É também uma área muito ágil, em que estamos sempre sendo motivados a pensar na próxima onda tecnológica ou midiática, nas próximas demandas educacionais.  Isso nos coloca num estado de prontidão, de atenção a tudo o que está sendo criado, inventado, disseminado como pesquisa científica e tecnológica e que modifica a nossa atuação. E o melhor de tudo: isso pode exercer um impacto na vida de outras pessoas que desejam crescer e aprender.

 

Liliam Silva l Blog educação-a-distância.com_Conte para nós sobre o conteúdo de seu último livro, lançado há pouco e com bastante sucesso.

ANDREA FILATRO_ Agradeço a referência ao livro. Demorei um pouco para publicar um novo título, porque eu queria organizar os fundamentos da produção de conteúdos educacionais. Aliás, esse é o título do livro, lançado pela Saraiva no finalzinho de 2015.

Foi um trabalho que exigiu bastante dedicação porque eu quis abordar essa questão da produção de conteúdos de uma forma multidimensional, desde os aspectos tecnocientíficos, aqueles relativos à organização do currículo e mais próprios do   especialista em conteúdo, passando pela dimensão pedagógica, incluindo as teorias pedagógicas e aquelas relacionadas à aprendizagem multimídia e à teoria da carga cognitiva, que se aplicam muito bem ao design de conteúdos educacionais. E também abordamos a dimensão comunicacional, com toda a parte midiática e de linguagem que é pertinente a essa área, chegando à dimensão tecnológica, com os padrões de interoperabilidade e a emergência de novas tecnologias, ambientes virtuais de aprendizagem e ferramentas de autoria.  E eu não poderia deixar de fora a dimensão organizacional, relativa aos processos de produção propriamente ditos, com o modo de produção artesanal, passando pelo processo industrializado até os modelos pós-industriais.

Mas os fundamentos apenas não são suficientes para subsidiar a produção de conteúdos educacionais. Precisamos olhar também para a prática. Então, a segunda metade do livro trata dos processos de planejamento, autoria, roteirização, produção e avaliação de conteúdos educacionais.

No meio dessas duas grandes partes – a fundamentação teórica e a parte prática de produção – trabalhamos com a gestão de projetos, tentando organizar os recursos, as pessoas, os prazos, os custos envolvidos nesse processo de produção.

Esse livro deu muito trabalho para ser feito e também muito prazer, e espero que dê muitos frutos para as pessoas que trabalham na educação a distância e com educação apoiada por tecnologias.

 

Liliam Silva l Blog educação-a-distância.com_Mais ou menos há uns 10 anos atrás eu tive a oportunidade de aprender muita coisa com você na área de design instrucional/educacional, quando você foi a nossa consultora-especialista e ficou conosco por alguns meses nos quais aprendi muitas coisas. O que mudou dali para cá?

ANDREA FILATRO_ Bons tempos em que trabalhamos juntas! De lá para cá, o DI se tornou muito mais conhecido no Brasil. Há muito mais pessoas trabalhando, pesquisando e publicando nessa área. Um fator de nível que influenciou bastante na disseminação do DI foi a criação da Universidade Aberta em 2005. Daí em diante, estabeleceu-se um padrão mínimo para o design instrucional com a a produção de materiais impressos ou, impressos veiculados digitalmente, e a organização de atividades em ambientes virtuais de aprendizagem online.

Mais recentemente, com a explosão dos dispositivos móveis – celulares, tablets etc. – e das redes sem fio, a área de DI foi sacudida. Ela estava tranquila em um modelo bem estabelecido de objetos de aprendizagem acessados em computadores pessoais. Agora nos deparamos com algo novo, que leva a um novo patamar aquela ideia de aprendizagem em qualquer espaço e em qualquer tempo.

Contamos agora com um público muito mais exigente, porque acessa materiais do mundo inteiro, conteúdos abertos de universidades de ponta, além de novos players no mercado, como as startups, que surgem com soluções inovadoras, muitas vezes revolucionárias que se impõem rapidamente como novos padrões de ensino-aprendizagem.

Podemos citar dois exemplos que há dez anos eram muito difíceis de implementar: a aprendizagem adaptativa e a gamificação. Hoje eles já fazem parte de alguns ambientes de aprendizagem e de certa forma são padrão em cursos oferecidos em sistemas abertos.

O que não mudou é a necessidade de as pessoas estabelecerem conexões e relações significativas com seus pares e com aqueles que podem apoiá-los na aprendizagem. E aí há um espaço fantástico para os designers instrucionais proporem, desenvolverem, executarem e avaliarem soluções educacionais que ofereçam oportunidades seguras, confiáveis e efetivas no sentido de ajudar as pessoas a atribuírem significado à enorme de informações, recursos e experiências às quais elas estão expostas no mundo contemporâneo.

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