Gabriel Rodrigues – Grupo Kroton

Dr. Gabriel Mário Rodrigues, Presidente do Conselho do Grupo Kroton Educacional que é  o maior do mundo,  teve fundamental participação e liderança na primeira revolução do setor educacional brasileiro. Com uma trajetória brilhante,  Dr. Gabriel iniciou a sua atuação na Educação fundando a Universidade Anhembi Morumbi em São Paulo que se tornou referência no ensino inovador dentro do ensino convencional superior.  Em 2005 vendeu a Universidade Anhembi Morumbi  à Laureate e logo depois migrou para a Anhanguera e consequentemente em uma ação estratégica entre Anhanguera e a Kroton, fundou o Grupo Kroton Educional no qual hoje em sua função de liderança no Conselho determina as diretrizes do Grupo.

 

Liliam Silva I Blog educação-a-distância.com_ O senhor foi pioneiro e criativo na área da Educação, na Educação como um todo e especialmente na Educação a Distância. O senhor apostou na EAD justamente em um momento que ninguém sabia ao certo o que era educação a distância, daí a minha pergunta é a seguinte: com todos estes atributos visionários que o senhor tem, o que está pensando neste momento? Qual é a próxima inovação ? Qual é o próximo projeto criativo?

Gabriel Rodrigues I Grupo Kroton_ Você está me perguntando sobre o meu mais novo projeto. Há bastante tempo, mais ou menos um ano e meio,  eu tenho aplicado uma ideia antiga que eu tinha desde os tempos da Anhembi Morumbi, que é a de criar o  “Instituto de Inovação”  baseado em empreendedorismo e criatividade, de maneira que seja ligado sempre às questões educacionais. Para mim o processo criativo não é necessariamente uma aptidão inata, pois com o treino todas as pessoas possuem a potencialidade para desenvolver a criatividade tanto no plano pessoal como no plano de atuação no país, porque a criatividade serve para resolver problema, para vencer desafios. Se você está com a mente treinada e acostumada a isto, tudo fica mais fácil.  Para mim a criatividade é um processo que deve ser complementar na área educacional e deve acontecer desde o ensino fundamental, no ensino médio e no  ensino superior e por que? Porque  agora o mundo dos negócios ficou cada vez mais sofisticado e o que vale é o capital humano,  porque o capital humano significa que quem tiver a criatividade como atividade principal , como treino diário,  terá uma vantagem competitiva maior.

 Liliam Silva I Blog educação-a-distância.com_Então o senhor vai fundar o “Instituto de Inovação”..

Gabriel Rodrigues I Grupo Kroton_  Sim, é o Instituto de Inovação que será fundado. Estamos estruturando a Rede Brasileira da Criatividade. Eu vejo ações de criatividade apenas “pontuais” e todo mundo acaba falando apenas um pouquinho e não tem esta ideia organizada como acontece aqui nos EUA . (Esta entrevista aconteceu em Santa Monica Beach na Califórnia-EUA)

 Liliam Silva I Blog educação-a-distância.com_Onde será o Instituto?

Gabriel Rodrigues I Grupo Kroton_ Está começando agora. Vai começar na minha garagem como todo bom negócio.

Liliam Silva I Blog educação-a-distância.com_Vai ter alguma relação da criatividade com a tecnologia?

Gabriel Rodrigues I Grupo Kroton_ Sim, porque hoje a tecnologia é um elemento que torna muito mais ágil a criatividade. A criatividade é o insight, é a ideia que todo mundo tem. A maneira de viabilizar a ideia criativa e torná-la uma ação é uma outra questão também.

Liliam Silva I Blog educação-a-distância.com_O senhor é um modelo de ideias criativas. Alguns tem mais ideias criativas como o senhor, não?

Gabriel Rodrigues I Grupo Kroton_ No meu caso é que eu fico ligado em tudo o que está acontecendo. A única vantagem é que eu fico vendo tudo. Você sabe também que todos os criativos possuem um estigma, porque são pessoas que rompem barreiras e não são muito bem vistos. O criativo assusta, tanto é que nas grandes empresas é mais difícil ver criativos atuando, pois se está dando tudo certo porque ouvir o “criativo”? Certamente existem nas empresas tecnológicas setores de criatividade com profissionais criativos e nos quais devem existir mesmo;  mas nas empresas distantes desta área o criativo sempre assusta. Por exemplo, nos dias atuais vemos que o cliente não está mais tão fiel à aquelas marcas ou produtos  que ele não trocava por nada há tempos atrás. O consumidor hoje tende a optar por aquele produto ou marca que lhe ofereça a melhor vantagem.  O que as grandes empresas precisam pensar diante disto? É sempre pensar “o que é que vou dar a mais para este meu consumidor”.  E isto também envolve a criatividade.

Liliam Silva I Blog educação-a-distância.com_Em todo negócio educacional que o senhor se envolveu, as coisas se potencializaram e cresceram. Nós sabemos que não foi sorte mas foi fruto de muito trabalho e de muita criatividade. O senhor sendo este empresário vitorioso nos diga quais são os planos para o futuro…

Gabriel Rodrigues I Grupo Kroton_ Bem, todo mundo sabe os goles que eu bebo mas não sabe os tombos que eu levo.  Mas quem tiver 51% dos goles à mais sempre levará maior vantagem. Como eu disse anteriormente, a gente precisa estar ligado, antenado com as coisas.  Sobre planos para o futuro, eu  faço parte do Conselho da Kroton Educacional (Dr. Gabriel é o Presidente),  e no Conselho o meu papel é dar diretrizes. A Kroton está bem organizada, mas a área educacional como um todo procura acompanhar  todas as inovações que acontecem no desenvolvimento dos processos de ensino e aprendizagem.

Ao analisarmos as coisas de maneira geral na Educação, veremos que elas continuam muito próximas de 20 ou 30 anos atrás, então haverá uma ruptura. No passado tínhamos a necessidade de ter alguém como intermediário da informação, no caso o professor. Hoje o professor não é a pessoa chave pois através da tecnologia é possível emitir informações que fazem com que as pessoas absorvam e adquiram mais e mais conhecimentos. Então o caminho do sucesso é aperfeiçoar esta maneira de “como” e de “quem” irá “passar” o conteúdo ao aluno. Lá no início da EAD, na qual você começou ali, o ensino à distância era a reprodução das aulas presenciais, das apostilas da época e agora com todas as tecnologias educacionais e a facilidade das multimídias cada vez mais pode-se aprimorar todo o processo. Sempre vai depender de uma boa história. Sempre vai depender de um bom conteúdo. Quem passar a “melhor’ história ganha a corrida.

 Liliam Silva I Blog educação-a-distância.com_Dr. Gabriel, o senhor se arrepende de ter vendido a Universidade Anhembi Morumbi?

Gabriel Rodrigues I Grupo Kroton_ Bem, eu nunca me arrependo de nada do que eu faço. Foi uma decisão  familiar e foi importante porque eu teria me arrependido se eu tivesse vendido e não mais ficado na área. Então mesmo dentro do negócio eu ainda fiquei por 6 anos e depois eu tive possibilidade de fazer a sociedade com a Anhanguera e posteriormente migrar para a Kroton.  Isto tudo  quer dizer que eu não deixei de ficar com a Educação na cabeça, por isso foi importante. Como eu tenho tantas atividades eu nunca tive tempo para pensar sobre isto. É a primeira vez que me fazem esta pergunta.

Liliam Silva I Blog educação-a-distância.com_ O senhor sabe que deixou muitas saudades na Anhembi Morumbi, não sabe?

Gabriel Rodrigues I Grupo Kroton_Cada um tem uma maneira de trabalhar. A minha maneira é a de ter uma ligação forte com as pessoas. Quando a instituição fica grande e dependente de grandes estruturas,  o que acontece é que a relação com o professor torna-se menor. Eu me lembro que após 10 anos que iniciei a Anhembi Morumbi,  eu participava de todas as reuniões de planejamento, e na ápoca  teve um professor de marketing  que se chamava Piero Fioravante  que era Diretor da Walita, que me dizia o seguinte: “ Dr. Gabriel o senhor não precisa fazer nada. Apenas fique na sala dos professores cumprimentando cada um deles e perguntando como vai”.  Nem deu para fazer isto, mas eu acho que as grandes estruturas ficam longe do professor e o professor é  o principal elemento  que está em contato com o aluno.

Liliam Silva I Blog educação-a-distância.com_Estas características mais afetivas e de empatia, são características do senhor. O senhor é uma pessoa afetiva.

Gabriel Rodrigues I Grupo Kroton_É verdade. Foi uma atividade que deu certo e eu coloquei todo o meu esforço para que tudo se desenvolvesse.

Liliam Silva I Blog educação-a-distância.comO que se pode melhorar no ensino superior como um todo?

Gabriel Rodrigues I Grupo Kroton_ Lá na Kroton, logo que conheci a estrutura eu falei:  “faltam duas caixinhas”, a do aluno e a do professor. Tínhamos na Anhembi Morumbi uma rede social projetada pelo prof. Maurício. Você se lembra? Era um sistema muito interessante, onde tínhamos um determinado tema que possibilitava trocas de ideias entre todos os professores. Então, precisa fazer isto. Caso contrário, o professor fica distante e ele não se sente pertencente à organização.  Outra coisa para a melhoria do ensino superior, que é o grande desafio  das grandes organizações,  é a retenção do aluno. Muitas vezes o aluno entra na universidade sem saber ao certo o que deseja e em outras vezes ele não possui os recursos para cursar uma universidade,  então por qualquer razão ele abandona o curso  e aí a evasão  no ensino superior  é muito grande. A cada ano o percentual dos que evadem chega a ser  a mesma proporção dos que entram na universidade. Então como fazer que este aluno não fique abandonado? É cuidar dele, não deixá-lo sozinho. O meu motorista faz gestão de marketing em EAD em uma conhecida universidade de São Paulo (Não é a Kroton), e eu perguntei a ele: o que falta no seu curso?  Ele me respondeu que faltava mais relacionamento.  Um Tutor com 300 alunos não possui condições de cuidar de todos. Infelizmente o ensino a distância ficou desvalorizado por isto também. O seu preço é bem inferior aos cursos presenciais e daí não consegue-se ter um tutor para apenas 50 alunos no máximo.

Liliam Silva I Blog educação-a-distância.com_De maneira geral, o que o  senhor acha da educação a distância dos dias de hoje. Será  uma alternativa para os problemas educacionais do nosso país?  As instituições precisam oferecer educação a distância?

 Gabriel Rodrigues I Grupo Kroton_ Em primeiro lugar eu não faço distinção do presencial com a modalidade EAD. Para mim é uma coisa só, que em virtude das realidades de cada momento vão acontecer presencialmente ou online. Em relação ao ensino a distância eu não tenho dúvidas de que ele funciona e funciona bem,  mas vai depender da pessoa, do aluno. Antigamente havia aqueles que se formavam apenas pela leitura de livros e mais nada, que eram os autodidatas;  então depende muito do indivíduo porque em função do seu desejo, ele vai encontrar os recursos de aprendizagem necessários. Mas o que realmente aconteceu com o ensino a distância? Como o Brasil está atrasado em relação ao número de profissionais com nível superior, o ensino a distância é um grande elemento para fazer com que o país tenha uma população com formação superior. Desta maneira volto a falar que tudo depende do interesse de cada pessoa. Hoje independente da EAD, todos podem acessar inúmeros conhecimentos pela internet. Eu observo o meu motorista, que melhorou muito após realizar uma graduação em EAD. Eu peço para ele fazer alguns relatórios e percebo que  após o curso ele melhorou muito,  e o melhor é que ele tem consciência disto. Ele se esforça para fazer o melhor, então a EAD já valeu! Então quando o aluno quer e as informações lhe chegam da melhor forma, tudo melhora. O ensino a distância quando bem realizado possui muito mais oportunidade de acesso à informação do que o ensino presencial. Por que? Porque no ensino presencial o que professor pode dar? Antigamente ele mandava ler os livros e agora manda olhar a internet. O que ele pode ser agora é um orientador de estudos e isto pode ser bem feito. O que eu vejo essencialmente no ensino a distância? Como há muita concorrência,  os preços baixam e nem sempre dá para construir o melhor curso, e sabe por que? Porque os alunos não estão tão preocupados em obter conhecimentos,  mas muito mais preocupados com a certificação.

Liliam Silva I Blog educação-a-distância.com_E dá para fazer uma EAD de qualidade no Brasil?

Gabriel Rodrigues I Grupo Kroton_ Eu acho que dá. Quem acreditar que é possível vai levar grande vantagem.

Liliam Silva I Blog educação-a-distância.com_Mas não com 300 alunos em um Ambiente Virtual de Aprendizagem….

Gabriel Rodrigues I Grupo Kroton_Não. Eu acho que com 300 alunos não dá para fazer nenhum curso, nem presencial e nem em EAD. É um ponto nevrálgico, pois geralmente o aluno de EAD é aquele com menor recurso e então fica difícil ele se recuperar com os outros alunos melhores preparados e que estão no páreo com ele.

Liliam Silva I Blog educação-a-distância.com_Com os cortes financeiros gerados pelo governo federal a Educação se ressentiu muito e as ações dos grupos educacionais caíram. Qual é a ideia do senhor sobre este fato? Esta realidade o preocupa?

Gabriel Rodrigues I Grupo Kroton_O mercado de ações vive muito de intermediários que ganham na baixa e ganham na alta e na prática o que aconteceu? As empresas, veja o caso da Kroton, possui a mesma estrutura, o mesmo pessoal e o mesmo número de alunos. Nada mudou neste sentido. Só que o mercado agora valoriza de forma diferente o que valorizava antes em relação a uma instituição educacional. Por que? As instituições ficaram muito dependentes do FIES e no momento que o governo cortou o FIES,  houve a interpretação que as empresas nos próximos 2 anos não terão mais os mesmos resultados que antes. A maneira de se valorizar a empresa era 15 ou 16 vezes o lucro. Hoje é 11  vezes…12 vezes. Então você me pergunta se eu me preocupo? Eu acredito que nestes próximos 2 anos a situação volta como estava anteriormente, mas vai ser preciso buscar mecanismos diferentes de financiamento. O que quebrou? A maneira como foi feito.  O governo podia chegar e falar que acabou o dinheiro e perguntar: “como fazemos agora?” . O governo apenas foi cortando e isto teve um impacto negativo. A necessidade de Educação ainda existe. Pelo PNE o  Brasil atende 7 milhões de estudantes e precisamos atender 11 milhões,  e desta forma necessita-se buscar mecanismos para isto, ou seja, de financiamento. Em todos os países nunca foi possível oferecer educação gratuita para todos, principalmente em países de grande população. No Brasil, o que está ocorrendo? O ensino superior dá a possibilidade de maior conhecimento e maior empregabilidade, que é um grande valor.

Liliam Silva I Blog educação-a-distância.com_Acho que por isto os cursos técnicos e tecnológicos deram tanto certo, não?

Gabriel Rodrigues I Grupo Kroton_ Isto mesmo, mas apostou-se muito nos cursos superiores, sendo que muitas pessoas que podiam ser excelentes profissionais técnicos passaram a ser profissionais medianos formados pelo ensino superior.